
| Festa de Aniversário do Centro |
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O Centro Social de Montes Altos comemora 18 anos de existência em festa antecipada. Dizem que, em matéria de aniversários, não é bom fazer comemorações antecipadas, mas Montes Altos continua a desafiar a superstição. Naquele que foi o último fim-de-semana de férias para muitos naturais da povoação, realizou-se a festa, a pensar sobretudo naqueles que não poderiam comparecer no evento que se vai realizar no dia 31, quarta-feira, o dia em que, há 18 anos, se virou definitivamente uma página desta povoação, mas também do território envolvente.
O programa era simples: actuação do grupo musical ‘Trigo Limpo’ e jantar-convívio. Iniciou-se o dia e com ele os preparativos da jornada, sempre muitos, para que tudo corresse com fluidez e de forma organizada. Funcionários e voluntários congregaram esforços numa demonstração impressionante. Rita Lemos chega ainda na parte da manhã. A saudade move-a, na volta a uma casa que ela aprendeu a amar. Mais tarde, durante o check-sound dos Trigo Limpo, a Rita confessa que dificilmente consegue sentir-se só como visitante, como se ainda continuasse ali a trabalhar, com as responsabilidades que exerceu ao longo dos quatro anos em que foi a Técnica de Serviço Social da instituição. Por volta das 16:00 chegam os Trigo Limpo e intensifica-se o movimento no átrio do Centro Social. As pessoas vão chegando e tomando posição nos seus lugares. As minis, os sumos, as águas e os gelados migram do bar para o exterior. O check-sound (teste de som) dos Trigo Limpo foi notavelmente demorado, pelo menos para o que estamos habituados por estas bandas. Equipamentos e instrumentos ganham espaço no átrio, percorrendo os momentos da tarde amena. Os músicos relacionam-se entre si de forma muito descontraída e afectuosa, uma energia boa paira no ar. Rapidamente estabelece-se uma interacção entre os músicos e alguns elementos da comunidade autóctone, como se fossem íntimos, gerando-se um ambiente familiar. Um dos músicos faz uma massagem a uma colega. Pouco depois é outra dama, sentada relaxadamente numa cadeira, que recebe o conforto das suas mãos, suscitando inveja a tanta gente que não se importaria de estar no lugar dela. O técnico de som, a quem o músico Ricardo Cimenta chamava amistosamente de sr. Engenheiro, executa o seu trabalho de equalização das pistas da mesa de mistura só com uma mão, pois o outro braço ampara uma menina de poucos meses, filha de uma das artistas, precoce nestas andanças. Uma das vocalistas traz duas minis, uma para ela, outra para um dos colegas. Outros elementos do grupo executam uma dança, tocam pandeireta ou tambor enquanto toca a música de fundo. Ninguém está parado, há uma vivacidade latente em cada expressão, contagiando os presentes, como testemunha o empenho das utentes Adelaide e Silvéria, percutindo freneticamente uma pandeireta, bem coladas ao ritmo. Chega mais gente, a Dra. Celina do Centro de Emprego de Beja, uma presença que nos faz sentir bem, é alguém que se habituou a ser positivamente surpreendida pela ousadia do Centro de Montes Altos. Os idosos crescem em número no átrio, ocupam posição nas cadeiras, e os residentes e naturais em tempo de férias, chegam da povoação, dado o aproximar da hora agendada para o início do espectáculo. Mas a descontracção casa-se com a mudança de planos, os músicos afinal vão jantar mais cedo e tocam depois da refeição. Tudo bem, não há stresses, afinal toda a gente vai comer mais cedo e assim a noite promete. O fim de tarde está ameno, convidando para uma refeição na rua. As pessoas organizam-se, um traz as toalhas de mesa, outro dispõe as cadeiras, outros apoiam os idosos na deslocação, outros trazem os pratos, outros os talheres, outros os copos, outros o vinho tinto, e comida para todos. No centro das operações está Diogo Sotero, fundador do Centro, orgulhoso, e com razão, do seu filho. Mas é notável como as pessoas se organizam. Há uma determinação e entrega invulgares, mesmo um olhar menos atento perceberia que há qualquer de especial e diferente em Montes Altos. E porque é diferente, a avioneta do Michel, um francês a residir na freguesia de Santana de Cambas, o homem que desenhou o projecto de arquitectura do lar de terceira idade, passou mesmo por cima de nós, flectindo depois o movimento e ganhando altura nos ares, enquanto o piloto levantava a mão direita num gesto de saudação. A cena teve algo de impressionante, aquilo que se passava aqui em baixo entrava, por um instante fugaz, em sintonia com os céus que a avioneta rasgava. Gerou-se protamente agitação, “um dia ainda hei-de dar uma volta com ele na avioneta”, suspiravam alguns. Diogo, previdente, instruiu no sentido de se fazer mais comida que aquela que estava destinada para o número previsto de participantes no repasto. Fez bem, pois apareceu mais gente do que se contava. Primeiro um prato de sopa, alguém comenta “Que boa que está, aqui em Montes Altos cozinha-se mesmo bem!”. Depois o frango e lombo de porco com arroz, tudo muito bem confeccionado, com direito a arroz doce e fruta da época no fim, tudo oferecido pelo Centro. O Januário não faltou ao evento. Pouco depois chega o seu amigo Hortinha ou Malito de Santana, cheio de novidades inspiradas nas suas explorações na Internet. Estes dois personagens sentam-se na mesma mesa em que se encontrava Jaime Salvadinho. Sotero passa ao redor dessa mesa, sempre atarefado em levar ou trazer isto e aquilo. A composição humana daquele sector chama porém a sua atenção: “Celina, olhe que está na mesa mais maluca que aqui está!”. Ela não parece preocupar-se com isso, tão pouco os visados com tamanho lisonjeio. Acaba a refeição, o início do espectáculo aproxima-se, agora é que vai ser. Ainda antes que alguém tivesse de se preocupar com a organização do espaço e a direcção das operações, já as pessoas se levantam, levam os pratos, os copos, os talheres, a comida e as toalhas para a cozinha. Num ápice, parecia que ninguém tinha jantado ali. Foi notável o sentido de auto-organização e entreajuda. Por volta das 9:00 a música saiu à rua. A componente bailarico foi discreta, as pessoas preferiram manter-se sentadas, com algumas excepções. Mas animação não faltou, os Trigo Limpo interagiram dinamicamente com os presentes, encurtando a distância entre o palco e a plateia, entre a música e as pessoas. Diogo Sotero subiu ao palco e proferiu um discurso tranquilo, mas emocionado. A espaços, fazia aparição em palco com o seu humor contagiante, injectando energia na noite, acarinhando alguém, agradecendo a outro, reagindo entusiasticamente aos comentários dos músicos, em suma, tocando naqueles pontos que fazem a diferença. Era um homem feliz, quem lia o seu rosto sabia isso, feliz por o Centro existir e poder oferecer às gentes tudo aquilo que tem ofere. A alegria estampava o seu rosto, como é comum nestes dias de aniversário do centro. Em palco, ele cantou com os músicos ‘Moreanes/Montes Altos és meu povo’, levando os presentes a uniram as suas vozes à sua, trazendo para a noite uma corrente de energia que interligou todos os presentes. Depois do espectáculo dos Trigo Limpo, foi o espectáculo do povo. Reunidos em torno de uma mesa, o povo de Montes Altos entrou pela noite a cantar à alentejana, fazendo ecoar por esses campos fora a sua voz, até às 4 da madrugada (estaremos a exagerar!), até que foram lá saindo... Tinham lugar as últimas brincadeiras da noite, bem como as inevitáveis e corrosivas intrigas. Houve ainda lugar para cantar os parabéns a você à Patrícia, que casou os anos – 27 – nesse dia. Era outra festa dentro da festa, tudo era movimento, ininterrupto. Já no fim da noite, os resistentes bebiam as últimas minis, reunidos a uma mesa. Falava-se de tudo e mais alguma coisa, a noite alentejana a isso inclina. Diogo Sotero procura convencer Tói Garrochinho de que é importante detectar as taras que cada um tem, salientando que as pessoas mais inteligentes normalmente têm uma pancada qualquer. Garrochinho aquiesceu, acrescentando um argumento demolidor: “Pois é, você está a ver, você é uma pessoa muito inteligente e no entanto tem um pancadão de todo o tamanho!”. Sotero perdeu a embalagem, não esperava por esta, e risadas hilariantes ecoaram pelo átrio. Sotero perguntava há poucos dias: “Quantas pessoas haveria ainda aqui (Montes Altos) caso não tivesse sido criado o Centro Social? Ao fazer essa pergunta, ele tinha em mente um número, o mesmo do seu interlocutor: zero. Mas a história para contar afinal foi outra, nessa noite de 27 de Agosto de 2011, este monte foi agraciado pela presença de centenas de almas, tudo isto graças ao pancadão do Sotero e de muitos mais companheiros de luta, guerreiros desta batalha a contracorrente, que teima em colocar as pessoas - o velho, a criança, o homem, a mulher - em primeiro lugar. |


